Novo de novo

março 7, 2011 at 8:54 pm (Uncategorized)

Já não posso usar a desculpa de ainda ser cedo, porque já não mais o é. A verdade é que o mundo está cheio de pessoas desinteressantes, com as quais eu tenho preguiça até de conversar. O que eu acho é que vocês, homens, são seres simples demais, previsíveis demais, 2D demais. E é exatamente isso: não encontro alguém dono de complexidade suficiente para aguçar meus sentidos. Meu coração tem batido como um marcapasso tum tum / tum tum / tum tum. Nada tem me tirado o fôlego, nada tem contorcido a minha espinha, nada tem me feito sentir saudades.
Saudade é lindo de se sentir, espontâneo e inofensivo. Você pode dizer pra quem quiser, ninguém some após ouvir que outro sente saudade, ‘eu te amo’ já é outra história.

E aí você que está lendo essa baboseira vai dizer que eu sou muito exigente e eu te responderia… Alguma vez eu insinuei não sê-lo? Pior ainda é ser orgulhosamente exigente. Posso dizer que não é intencional, que não foi uma opção, ao mesmo tempo que, caso fosse, minha sinceridade deixaria escapar que minha escolha não me tornaria diferente do que sou hoje.

Eu já não acredito em muita coisa. 25 anos e fica difícil pra que eu acredite em inocência, por exemplo. A gente vai perdendo a leveza, perde o pudor, perde o receio de compulsivamente falar palavrões perto ‘daquele’ cara. Chego a pensar que armamos uma armadilha atrás da outra, por culpa dessa preguiça de conhecer alguém mais a fundo. Eu penso em tudo o que não posso fazer e o que eu faço? Tudo ao contrário, claro. Às vezes chego a pensar que perco a referência de quem eu realmente sou, tudo pra provar pra mim mesma um monte de teorias sobre o sexo oposto.
Dificilmente erro, aliás.

E a gente ainda diz que não tem medo. Culpamos a circunstância, o atual, o ex, a nossa exigência. Culpamos o menino que nos roubou um beijo aos 15 anos, culpamos o cara que nunca conseguimos amar.
A gente cisma em dizer que o problema é qualquer outro, mas nunca, por nenhum segundo, medo.

Fato é que eu estou me BORRANDO.
Toda vez em que te encontro, eu faço tudo errado, meto os pés pelas mãos. Derrubo cerveja no teu carpete novo, eu levo um tombo antes de entrar no teu carro, dou uma cotovelada no teu supercílio tentando carinhosamente abraçá-lo. Gaguejo e pra confiar em mim eu bebo 3 vezes mais do que deveria. Quem sabe assim eu não precise falar mais nada, quem sabe assim eu tenha uma desculpa plausível pelo tombo, pelo soco, pelo carpete. Por ser desagradável também, na manhã seguinte eu não me culpo, culpo a vodka. Absolutamente tudo para que você me veja desengonçada como eu realmente sou, tudo na tentativa de não ter sequer tempo de começar a realmente me importar contigo.
Meu problema é saber demais, é reconhecer cada um dos teus sinais, por mais sutis que sejam ou que você ache que sejam. Meu problema é um dia te escutar dizendo uma coisa, enquanto leio todo o teu rosto me dizendo outra.

Ponto pra você, e pela leve arritmia que me causa… Às vezes… Bem de vez enquando.

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Despretencioso

março 1, 2011 at 6:56 pm (Uncategorized)

Talvez à medida com que eu me transformo, transforme-se também a minha maneira de me expressar. Já fui futuro do subjuntivo, presente e, mais tarde, uma eterna jaula de passado. Hoje? Hoje liberdade.

Chegou um tempo em que eu não conseguia mais escrever, não sabia. Eu parecia uma eterna repetição de mim mesma, tinha preguiça de mim mesma. O autoconhecimento leva tempo e nunca vem seguido de ponto final, a gente se redescobre o tempo todo. Transitamos por personagens reais tentando decidir qual queremos realmente ser e a verdade é que corremos o risco de não descobrir. Eu definitivamente não me importo. Desde quando vi graça em tentar, eu não me importo.

Gosto assim, solto, espontâneo. Pode até ser um pouco torto, contanto que seja sincero.
É tão bonito ser simples.
É tão raro sê-lo.

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Elogio ao Amor

janeiro 15, 2011 at 10:26 pm (Uncategorized)

Quero fazer o elogio ao amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível, já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje, as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se numa questão pratica. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, estou farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “está tudo bem, tudo bem?” Tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananoides, borra-botas, matadores de romantismo, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo do amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos cante no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraço, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar e a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do que quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

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Excesso

setembro 24, 2010 at 11:04 am (Uncategorized)

Desmedido, compulsivo e insensato.

Acontece que uma hora isso tudo tem de amadurecer. Tá que amar desmedido é uma delícia, mas comedimento e racionalidade fazem muito bem, obrigada. Por entre lençóis sujos, eram muitas as vezes em que eu não entendia a minha permanência teimosa naquela cama vazia. Isso bastou até o momento em que não bastou mais. Você me bastou até me faltar.

Era um sentimento loucamente desenfreado, que fez o quarto ficar pequeno, o apartamento ficar pequeno, os sonhos ficarem pequenos. No fim das contas, foi você quem ficou pequeno demais pra mim. Me escorria amor por entre os dedos enquanto o destinatário tinha a caixa de correio abarrotada por envelopes ainda cerrados.

Amor em demasia, pra uns, é amor demais. Redirecionei. Aluguei um depósito, depois outro e outro. Não pedi nada de volta, deixei contigo as linhas torpes de um amor que não coube mais em cativeiro. Contigo ainda existem envelopes meus que hoje já não significam nada.

Comigo uma estranha sensação de que nada disso realmente aconteceu, uma seringa de anestésico local me mantém consciente de não mais estar sentindo.

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Fotografia imaginária

junho 24, 2010 at 4:48 pm (Uncategorized)

Eu memorizei cada canto do seu quarto. É claro que memorizei, era uma garota apaixonada. Um colchão jogado ao chão, à espera de um box que não tinha a menor previsão de chegada. E a maneira como nos jogávamos nele, como se dividi-lo fosse tudo o que precisávamos para continuar sorrindo. O encaixe perfeito, uma boa noite de sono e a imensa dificuldade de nos desvencilharmos daqueles lençóis negros na manhã seguinte. A luz que teimava em incidir todas as manhãs pelas frestas da cortina, antes do horário de acordamos; o chão gelado e o seu casaco cinza de capuz vermelho, que eu costumava vestir em noites frias, acompanhado de um belo par de meia com sola emborrachada. Lembro-me de por vezes te acordar com beijos e da dificuldade que você tinha em assimilar que não estava sonhando, expressando um alívio contente. Recordo-me de te observar sob a luz indireta e de perder uns minutos te amando mais um pouquinho ao constatar teus olhos entrando nos meus.

Lembro também das paredes, repletas de fotos, lugares onde estivemos juntos e outros em que pretendíamos estar, desenhos e bilhetes carinhosos amontoavam-se dando mais e mais volume ao painel das nossas vidas. Evidências de um amor zeloso e cheio de pequenas surpresas. Enquanto você saía eu me pegava fitando-o por horas a fio e criando soluções infalíveis para cada espaço em branco com o qual pudesse me deparar. Queria encher as nossas vidas de um pouco mais de ‘nós’, porque, ao fim do dia, era só o que fazia sentido.

Confiei seu quarto à memória. Disse para mim mesma que era para as noites em que abríssemos 2 garrafas de vinho e apagássemos todas as luzes, para que mesmo assim eu soubesse por onde te guiar. Mas na verdade era para que, mais tarde, no vazio da minha própria cama, eu pudesse fechar os olhos e me imaginar ao seu lado na sonora trincheira que era a sua vida.

Eu te amava como um campo em chamas.

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Pequeno obstáculo

junho 22, 2010 at 4:36 pm (Uncategorized)

Foram muitas as pessoas que passaram pela minha vida. Muitas também foram as que deixaram sua marca, tenha sido ela boa, ou ruim – ou ambas.

Não costumo sentir remorso ao cortar laços quando enxergo neles algum tipo de nó. Incomoda-me o fato de me sentir presa a alguém. Incomoda-me saber que faço o outro sentir-se acorrentado à mim. Relações são escolhas, são trocas voluntárias de afeições, são uma construção consensual. Mais do que tudo, são demonstrações cotidianas e espontâneas da importância que o outro exerce em quem você é e em quem pretende ser.

Quando não mais existe a genuína vontade de provocar crescimento, ou quando se é indiferente  ao motivo daquele largo sorriso, perde-se o propósito. Você caminha em círculos, tropeçando sempre naquele mesmo pedregulho. Estupidamente tenta não ver o que é que o torna tão errante.

É difícil perceber.

Desata o nó.

Você só reconhece que já passou por aquele trecho apenas quando não existe mais onde tropeçar.

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Silêncio e Mentiras

junho 11, 2010 at 3:29 am (Uncategorized)

O alarme tocou despertando-me não apenas para o choque provocado por suas palavras, tão angustiantes quanto alguém puxando repentinamente a cortina de um quarto escuro, cegando-me com a dolorosa luz do sol. Era o fato de que eu desconhecia completamente aquele homem. Imaginamos conhecer as pessoas que amamos, e, embora não devamos ficar surpresos ao descobrir que não as conhecemos, sofremos assim mesmo.

Escutamos palavras ásperas daquele de quem é quase insuportável de se escutar. Justamente por isso dói tanto. A dor vem embalada no amargo embrulho da surpresa inconveniente. Só o que eu podia fazer era ficar sentada no banco do telefone e escutar, um tanto trêmula, pensando que todo mundo devia ser uma ilusão de ótica. Orgulhamo-nos ao pensar ou dizer o quanto conhecemos aquele que amamos, acreditamos nisso pura e simplesmente – mas  de modo algum. São facetados de formas engenhosas, com centenas de lados obscuros, impossíveis de se descobrir mesmo no curso de uma vida inteira.

Um amante existe somente em fragmentos e é a partir deles que construímos uma pessoa inteira. O que cada um de nós cria, já que o que falta é preenchido pela nossa imaginação, é a pessoa que desejamos que ela seja. Quanto menos a conhecemos, mais a amamos. E é por isso que sempre nos lembramos daquela primeira noite arrebatadora quando ela era uma instigante desconhecida.

É o tipo mais difícil de entendimento, não só a respeito do outro, mas também de nós mesmos. Ver nossas vidas como uma ficção que escrevemos e na qual acreditamos. Silêncio e Mentiras. A sensação que tive naquela noite – de que eu não conhecia o homem com quem dividia a minha vida, não conhecia a mim mesma, de que talvez fosse impossível conhecer uma única alma no mundo – foi uma solidão apavorante.

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Recordação

junho 1, 2010 at 5:59 pm (Uncategorized)

A primeira coisa que notavam no meu marido era a aparência. Alto, moreno, com um sorriso reconfortante que parecia não esconder nada: aquele tipo de beleza fácil que não pode ser estragada pela tensão ou por doença, como algo feito de ouro, de modo que mesmo se você o entortasse ou fundisse, permaneceria sempre puro e belo. Era assim que eu o via, desde quando era uma menina e olhava para ele na sala de aula. Mas não era só eu; era assim que todos o viam.

A beleza é uma lente que distorce. Ele tinha aquele tipo de fisionomia que é sempre recebido com sorrisos e apertos de mão, olhadelas extras, olhares que duravam um instante além do normal; um sorriso e um rosto que não eram esquecidos com facilidade. Até a forma como ele segurava o cigarro, ou como se inclinava para amarrar o sapato, tinha uma certa graça masculina que fazia com que as pessoas quisessem esboçá-lo. Que forma mais torta e confusa de se viver. Receber ofertas de empregos, caronas e bebidas de graça – “É por conta da casa, querido” – sentir o ambiente mudar enquanto o atravessa. Ser observado em qualquer lugar a que se vá. Ser alguém que as pessoas anseiam por possuir, e estar habituado a tal sensação; ser desejado tão imediatamente, com tanta frequência, que a própria pessoa nunca soube o que ela mesma talvez desejasse.

(E o mais incrível é que era meu.)

Andrew Sean Greer

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Extremamente Alto & Incrivelmente Perto

maio 28, 2010 at 4:33 pm (Uncategorized)

Precisamos de bolsos muito maiores, pensei ao deitar na cama, contando os sete minutos que uma pessoa leva em média para dormir. Precisamos de bolsos gigantescos, bolsos grandes o suficiente para nossas famílias, nossos amigos e até mesmo as pessoas que não estão em nossa lista, pessoas que nunca conhecemos mas ainda sim desejamos proteger. Precisamos de bolsos para distritos e cidades, um bolso que pudesse conter o universo.

Oito minutos e trinta e dois segundos…

Mas eu sabia que não podia haver bolsos tão gigantescos. No fim, todo mundo perde todo mundo. Nenhuma invenção poderia evitar isso, portanto me senti, naquela noite, como a tartaruga que tinha sobre si o resto do universo.

Vinte e um minutos e onze segundos…

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Alto-mar

maio 17, 2010 at 7:22 pm (Uncategorized)

Na minha cabeça ressoavam destoadas vozes, cruzando umas por cima das outras, confusas, desesperadas.

Não conseguia discernir a totalidade de nenhuma das linhas de raciocínio, atordoadas. Diariamente elas me chacoalhavam em vão.

Dei as costas a tudo que me remetia você e essa vociferação que tanto me machucava os ouvidos.

Precisava conseguir chegar naquele lugar onde começava o silêncio, eu estava exausta de não conseguir mais escutar o que eu mesma queria. Encontrei esse sossego em um lugar lindamente distante e, desde então, não mais retrocedi meus passos. Não constatei nenhum motivo aparente exceto a falta de vontade.

Da noite pro dia, como quem estala os dedos, acordei vazia. Não existia mais nada em mim que ainda pudesse pertencer à você, nada em você que pudesse despertar aquela minha dedicada adoração.

Meus pés me levam a novos destinos.

Minha memória já não sabe desenhar seu rosto.

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