Retrocesso
Veio manso, abraçou, preparou chá, limpou o que sangrava, fez curativo no que o tempo não havia conseguido fechar. Estendeu a mão, contou sua história, entregou toda a doçura que ainda existia no que também lhe doía. Ambos machucados, vendo esperança no que o outro perdera… Tentando nos convencer de que a partir daquele nada poderíamos ter algo novamente. Foi ali que achei que nós nos entenderíamos.
Encarava fulminantemente o âmago dos meus olhos e me desconcertava todas as vezes. Brincava de fita-lo até que ele desviasse o olhar, mesmo sabendo que eu sempre desistia segundos depois. Ele mais destemido e eu sempre acanhada. Não suportava aquele olhar tão determinado, ele me desmontava em inúmeros pequenos pedacinhos que ficavam aos seus pés… Esperando serem consertados. Desviei o olhar. O que sinto era tão tímido quanto eu e até um pouco imaturo.
Tive vontade de abandonar longe de casa tantas memórias tristes depois que seus dedos tocaram meus cabelos embaraçados. Nada que me remetesse a outras histórias nem a outros amores, quis manter apenas a pessoa na qual eu havia me tornado a partir deles. Prefiro este eu, disse baixinho, o eu que aprendeu muito. Estive disposta a construir um mundo todo do zero, caso nada no meu mundo pudesse ser salvo. Estive disposta a me reconstruir de diversas formas, caso alguma pudesse dar certo pra nós. Quis dar muito de mim, você sorriu e eu quis te entregar quase tudo.
Aproximou-se além do que deveria. Eu quis algo. Você corria em minha direção e fugia de mim ao mesmo tempo. Naquela semana suspeitei que você quisesse nada. A certeza doeu. A certeza perfurou o meu peito e o fez ressoar madrugada adentro. Voltei alguns passos pensando se o havia entendido errado, se havia o entendido ao menos em algum momento. Tentei descobrir quem você era. Quem é. Pensei se me enganei ou se me enganou. Já não sei mais o que você disse, nem o que eu quis escutar. Já não sei o que esqueço e o que quero lembrar.
Indecisos entre o algo e o nada, talvez tenhamos sido quase importantes um para o outro. Fomos quase algo que hoje é nada. Ou é algo. Talvez eu nunca entenda. Num momento quase tudo e no seguinte nada. Percebeu que nada nunca é quase, só é nada. Ponto. Tive nas mãos, segurei-o por alguns instantes. Mas nada. A gente tem que se sentir pronto, precisa enfiar os dois pés na lama e precisa continuar imerso quando o outro não está observando. Nem precisa querer, é só não conseguir em momento algum lutar contra. Eu quis algo. Quis protegê-lo e sabia que poderia fazê-lo mesmo quando não conseguia proteger sequer a mim mesma.
Fui acometida por uma catalepsia quase moral, ficar imóvel era uma dívida que eu precisava pagar à mim mesma. Precisava parar de escutar teu nome subindo as escadas, tocando no meu celular, trombando comigo na Augusta. Perdoe-me se precisei fazer de conta que nunca fomos parte um do outro. E se eu continuar fazendo: respira fundo e vive. Uma hora a gente se encontra e vai ser tudo igual e tudo completamente diferente. Depois se perde de novo, porque é provável que não sejamos mesmo um par. Vive.
Contabilizei se você mais curou do que abriu feridas, tive medo de saber o resultado.
Carolina disse,
agosto 8, 2011 às 3:03 pm
Tenho até medo quando venho aqui e algumas vezes seus textos condizem exatamente como o meu momento , exatamente em minimas partes cada frase cada conclusão batem em igual com a fase da minha vida, sintonia anormal, fico feliz por ver que uma mulher linda como você passa por coisas que eu passo também e me sinto mais forte pra supera pois vejo que você também ta tentando isso , seus textos , frases e palavras são demais , parabéns de coração!
migiacomini disse,
agosto 8, 2011 às 3:29 pm
Como sentimos medo em lidar com o desconhecido. Muitas vezes, sentimos mais medo de lidar com o conhecido do que enfrentar o que nem sabemos como é.
Acho lindíssima a forma com que tu escreve, tens um dom natural que me encanta.
Parabéns, Nicolle.
Bianca Pokorski disse,
agosto 8, 2011 às 6:14 pm
In-crí-vel. Não passei pela mesma situação que você, mas passei recentemente pelas mesmas sensações e sentimentos. Ao menos os expressos no texto. Neste texto encontrei tua vontade de acreditar, teu desejo de se entregar e ser feliz. Teu medo de sentir o soco no estômago, e perder tudo novamente, criando então novas feridas por cima de cicatrizes ainda abertas. Percebo tua desilusão, e o quanto te fere perceber que pode não ter passado de desejo. Sim, ele pode saber que você é única, mas você é a única que ele quer? Se fosse, saberia. E senti claramente tua esperança. Sim, tu sabe o caminho ao qual tudo isso está seguindo, mas não cessa de acreditar que tudo pode dar certo, logo alí, adiante. Não sei se você realmente passou por isso tudo, ou se eu me encontrei de certa maneira em teu texto, e então tirei conclusões próprias de minha vida, na tua experiência. Mas o certo, é que nessa vida, tudo são lições, e que para sermos mais fortes, precisamos da queda! Respira fundo Nicolle, e segue adiante. O que é nosso está guardado.
Cada vez te admiro mais.
Samanta C. disse,
agosto 8, 2011 às 7:19 pm
Perfeito!!!
Você descrevendo perfeitamente essas coisas que acontecem comigo e pelo visto, com mais gente aí.
Beijos.
theriseandfallofli disse,
agosto 9, 2011 às 1:56 am
Parabéns Nicolle,lindo texto,como sempre!
@carlareiis disse,
agosto 9, 2011 às 2:05 am
Perfeito, e qualquer outro adjetivo parece não se encaixar aqui.
@luisanee disse,
agosto 9, 2011 às 2:38 am
Preciso concordar com o que a Carolina disse. Você põe nas palavras certas o que eu passo e tento tanto escrever.
Publico alguns em meu blog, espero que não se importe, coloco sempre seu nome e o link do seu wordpress. Beijo!
mariana disse,
agosto 15, 2011 às 8:58 pm
já li umas 7 vezes, não canso de ler e encaixar perfeitamente nas minhas ultimas semanas! MUITO BOM!
Lyis Oblique disse,
agosto 19, 2011 às 4:08 am
Pra variar, eu lendo e me identificando.
GeanMenze disse,
setembro 16, 2011 às 3:09 am
Bru diz:
Este.
Já o li umas 500 vezes, gosto dele.